terça-feira, 4 de maio de 2010

O "MIXTÉRIO" DO EVANGELHO...

Em Marcos 4:26-29, lemos: "Disse ainda: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra; depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como. A terra por si mesma frutifica: primeiro a erva, depois, a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga. E, quando o fruto já está maduro, logo se lhe mete a foice, porque é chegada a ceifa."

Todos nós aqui vivemos em meio à cultura ocidental, que em muitos lugares do oriente é chamada de “cultura da impaciência”, “cultura da pressa”, do “já e agora”, do “self-service”.
E nós bem sabemos que os povos orientais têm um pouco de razão nessas afirmações. Basta observar que as tecnologias que mais fascinam e que são mais buscadas pelo nosso povo, são aquelas que não somente são as mais avançadas tecnologicamente em termos de qualidade, mas principalmente e indispensavelmente as que nos oferecem rapidez (carro, computador, trem-bala). Mas eu diria que os orientais também já estão aderindo à essa cultura, pois toda a tecnologia gerada no oriente hoje é uma tecnologia totalmente em prol da rapidez... É a cultura do “já e agora” influenciando pessoas do mundo inteiro...

Estamos aqui entre pastores, futuros pastores... pessoas que já trabalham, ou estagiam em alguma igreja, seja ela pequena ou grande, numericamente falando. Todos trabalham, ou trabalhão em igrejas, pastoreando-as, administrando-as, juntamente a um conselho. Igreja essa, ou conselho esse, que às vezes é formado por pessoas que vivem em meio à essa cultura. Em meio à correria louca do mercado de trabalho, da produção acelerada, da competição de desempenho fomentado pelas empresas, e justamente sob essa cultura cruel do “já e agora”. Aonde o mais importante são os resultados rápidos, e a "fórmula mágica" para se chegar à esses resultados é o que é mais buscado.
E como estou falando aqui para crentes, para você sentir isso melhor, imagine você indo fazer um primeiro contato com uma determinada igreja e conselho, com vistas ao pastoreio. E essa igreja talvez venha a ser teu próximo campo, ou até mesmo o único “trabalho” à vista. Nesse primeiro contato, os irmãos presbíteros expõem os desejos e projetos para aquela igreja. Dentre os projetos, o principal, mais anunciado, desejado e enfatizado: é o crescimento da igreja local...
FALANDO MAIS CLARAMENTE COM VOCÊ: eles são bem pragmáticos. E dizem assim: “Encha essa igreja de gente que nós investimos em você, ou, continuamos com você!”
Ao você "acertar" com aquele conselho ou igreja, você já irá sabendo que terá que se desdobrar em esforços afim de que dentro de um determinado prazo (as vezes muito curto), as estatísticas terão que mostrar que o número de membros aumentou significantemente. Pois as pessoas esperarão que VOCÊ tenha feito a igreja crescer.
Hoje não é difícil encontrar líderes que acham que a igreja deve funcionar como uma empresa.
Essa preocupação com o crescimento gera uma fascinação por números e estatísticas, assim como as empresas gostam de mostrar suas vendas e crescimento com tabelas e gráficos. (por favor, não me interprete mal, eu sou a favor das estatísticas)
Mas hoje, se você vai a um congresso, alguém vai te perguntar quantos membros há na tua igreja, quantos matriculados na EBD, antes mesmo de lhe perguntar teu nome.
Há uma espécie de NUMEROLATRIA, onde quem tem o ministério abençoado é aquele que pastoreia a igreja maior, ou que apresenta um relatório mais "gordo". Por outro lado, é interessante dizermos que também não podemos ser pastores com NUMEROFOBIA (com medo de igreja grande, ou que cresce).
Jesus fala do crescimento em seu reino, não porém o tipo de crescimento que pode ser medido com gráficos, mas o crescimento interno da influência do reino. Crescimento esse que, a princípio, não se pode medir com estatísticas, e que depois dos resultados supera as estatísticas.

CONTEXTUALIZAÇÃO: A parábola contida nestes versículos é uma das mais breves, e foi registrada apenas em Marcos. Porém, apesar de pequena, ela é profundamente interessante para todos aqueles que são verdadeiros cristãos. Ela nos mostra a obra e desenvolvimento da divina semente.

O evangelho de Marcos não contém um material dissertativo. Marcos não registra muitas parábolas, ele faz uma seleção do material do qual dispunha.
Neste capítulo, foram postas as parábolas do semeador, da semente germinando secretamente, e do grão de mostrada. Essas três parábolas usam a imagem da semente e da agricultura Essas parábolas falam do plantio da semente, da germinação e do amadurecimento, da ceifa e da colheita. Nesta altura é interessante lembrarmos que a sociedade israelita permaneceu basicamente agrária através dos períodos bíblicos. Por isso, pode-se dizer que o uso de semente, sem dúvida, agiu como recurso de memória para os cristãos, permitindo-lhes fazer uma conexão entre estas parábolas, o reino de Deus, e suas vidas.

O AT mostra amplamente a relação íntima entre as pessoas e o solo: Gn.2:15 indica que uma das tarefas humanas mais básicas era “cultivar e guardar” a terra. Por exemplo, é interessante como Isaque percebeu o “cheiro do campo” das roupas de Esaú, usadas por Jacó. Quando os israelitas se estabeleceram na terra de Canaã, começou um processo de desmatamento, e as terras altas de Efraim e Judá, e o leste do rio Jordão foram se tornando terras de cultivo.
Na expansão de Israel durante o período do reino unido, de Davi e Salomão, a atividade agrária prosperou (1Rs.4:25). Alguns reis como Davi e Ezequias tinham interesse especial na produção agrária (1Cr.27:26-31; 2Cr.32:28). Uzias foi descrito como “amigo da agricultura” (2Cr.26:10).

E, conseqüentemente, a agricultura também era importante nos tempos neotestamentários: Em seus ensinamentos Jesus fez muitas referências à terra e seus produtos, o que dá a entender que ele e seus ouvintes conheciam bem o assunto. Mateus 13, por exemplo, traz 4 parábolas relacionadas com a agricultura. Outros autores do NT também fizeram referência a assuntos agrícolas: Paulo falou de colher e semear (Gl.6:7-10), e Tiago referiu-se ao agricultor que espera pacientemente pela chuva (Tg.5:7).

Ao ler Mc.4:26-29 muita gente acha que essa parábola é um tanto quanto simples. De fato, se a leitura dessa parábola, for feita de forma rápida e despretensiosa, será difícil tirar alguma lição, pois essa pequena porção parece (e eu disse PARECE) ser simplista. Nela não se fala nada acerca da preparação do solo, da forma de irrigação usada, da podagem, do corte das ervas daninhas, da adubagem, da fertilização. O texto não fala nada disso, não dá esse tipo de detalhe. O lavrador leva uma vida de lavrador normal: dorme à noite, desperta pela manhã, colhe o fruto maduro no tempo da colheita. O público que ouvia Jesus já tinha em mente todas essas coisas: o serviço de lavrar a terra, a fertilização, a poda, todo o trabalho
Obs: A parábola não relata os detalhes que eram necessários para a agricultura porque tudo isso já está subentendido e dado como certo, na mente dos ouvintes. O povo conhecia de agricultura. A agricultura estava presente em sua cultura, norteava seus costumes. Essa parábola deixa de lado todos esses detalhes (por mais importantes que sejam) e a ênfase é colocada em três aspectos da plantação: na semeadura, na germinação e na ceifa. E diante dessas três ênfases queremos tirar princípios norteadores para nós:


I. HÁ ALGUÉM QUE SEMEIA
“Disse ainda: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra;”

Aqui nós somos instruídos no sentido de que, assim como no cultivo do trigo, na obra da graça divina deve haver um semeador. Jesus estava dizendo: “É assim que o governo de Deus funciona nas vidas dos seres humanos.” [“É assim que o reino de Deus exerce sua influência nos corações dos homens”].

A parábola fala do semeador, mas não demonstra nenhum interesse em sua identidade: “um homem” lançou as sementes na terra.
Quando Jesus pintou esse retrato, Ele esboçou um agricultor saindo para semear sua semente na lavoura.
As principais sementes e grãos cultivadas pelos israelitas eram o trigo, o centeio e a cevada. Em Lc.8:11 Jesus deu à palavra “semente” uma nova conotação de significado quando disse: “A semente é a palavra de Deus”. Isso também está registrado aqui no v.14: “O semeador semeia a palavra.” É a partir dessas revelações de Jesus que o NT combina os conceitos físico e agrícola da semente.

Semear as sementes é um trabalho árduo, mas esse é o papel do semeador, e ele o faz. Não devemos pensar que um semeador passava o dia ociosamente. Naturalmente que não! Ele tinha trabalho pesado para ser feito: O serviço de lavrar a terra, fertilizá-la e limpá-la das ervas daninhas, é algo que levava tempo e esforço. O cultivo de plantações no Israel antigo não era uma tarefa fácil: Como a Palestina fica entre o mar Mediterrâneo e o deserto, isso gerava um período de chuvas imprevisível. Em alguns lugares, se não tivesse o devido cuidado, a vegetação crescia tão rápido que formava até florestas. Por outro lado, no leste, as terras eram secas e improdutivas, com terrenos pedregosos. Ser semeador era algo que exigia muito esforço e preparo! Mas, conforme nós sabemos, a terra, sem nada, jamais produzirá o trigo. Sozinha ela pode produzir espinhos e abrolhos, mas nunca o trigo. Deve haver um semeador! A mão humana precisa arar a terra e espalhar a semente, senão não haverá colheita. Assim como a terra não produz o trigo sozinha, o coração do homem jamais se voltará para Deus, por seu próprio impulso, por sua própria vontade.
O coração do homem é totalmente destituído da graça divina. Está inteiramente morto para com Deus e incapacitado de conferir a si mesmo vida espiritual. Jesus precisa quebrantá-lo, através do Espírito Santo, e dar-lhe uma nova natureza. Precisa espalhar sobre ele a boa semente da sua Palavra, através da mão cooperadora de seus ministros! Atente bem para isso: Entregue a si mesmo, nenhum ser humano jamais buscaria ao Senhor.
Não se pode rejeitar a idéia dos semeadores! Deve haver alguém que semeie! Sem os semeadores/pregadores da Palavra, não podemos esperar colheita, pois seria o mesmo que esperar uma colheita quando nenhuma semente foi plantada. Os ministros da Palavra têm a tarefa divina de proclamar as boas novas de salvação em Cristo Jesus. Mas não podemos esquecer que na obra divina, o semeador é apenas um auxiliar. Esta idéia é mister para o evangelismo.
É interessante também dizer que a tarefa do evangelista não é apenas a de apresentar argumentos convincentes, e de induzir os outros por eloqüência, mas de semear a semente viva da Palavra de Deus no solo do coração humano. O germe da nova vida se encontra na Palavra, e sem a implantação dela ninguém jamais se torna cristão (1Pe.1:23). Aqui nós somos instruídos no sentido de que, assim como no cultivo do trigo, na obra da graça divina também deve haver um semeador.


II. HÁ UM CRESCIMENTO MISTERIOSO E INDEPENDENTE
"O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra; depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como. A terra por si mesma frutifica..."

Todos nós nos interessamos por segredos. Quando um amigo diz: “Quero lhe contar um segredo”, já ganha a nossa atenção. Saber algo que outras pessoas não sabem nos deixa empolgados. Tanto é que, geralmente, quando nos fazem uma pergunta para a qual não sabemos a resposta, nós lembramos de Dt.29:29... De fato, Deus possui alguns segredos e, às vezes, Ele nos permite que os conheçamos. Talvez, nunca venhamos a conhecer alguns dos segredos de Deus, mas há outros que Ele escolheu partilhar conosco.
Os segredos de Deus são mencionados inúmeras vezes no NT: Paulo fala isso à igreja de Corinto (1Co.2:6,7). Em Cl.1:26, Paulo fala mais desse segredo, que na maioria das versões é traduzido por mistério. Em 1Co.15:51,52, Paulo se refere a um segredo divino especificamente sobre a ressurreição: “Eis que vos digo um mistério...”.
Parte do propósito das parábolas de Jesus era partilhar alguns dos segredos divinos com os discípulos. Quando os discípulos foram até Jesus nos vs.10-11, perguntando por que Ele estava falando com eles por meio de parábolas, Jesus disse: “A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas”.

Depois de passar o dia semeando a semente, a noite chega. Para o semeador, isso significa o começo de um novo dia. Então, ele, cansado de um dia de muito trabalho, vai dormir. Na manhã seguinte, de acordo com a sua rotina, ele acorda e se levanta. E dia após dia, essa rotina se repete. No texto grego, o tempo verbal dos verbos “dormisse, levantasse, germinasse e crescesse”, é o aoristo subjuntivo. Isso quer dizer que elas devem ser entendidas como um processo contínuo: Ele está dormindo e levantando, e a semente está germinando e crescendo... O agricultor não sabe como esse crescimento acontece. E interessante é que até hoje acontece isso: o químico, ou o agrônomo, por mais especializado que seja, não consegue entender exatamente como a semente consegue transformar aquele pequeno pedaço de terra numa célula da planta. E exatamente igual às células que estavam na planta da qual a semente saiu. (EX: Na década de 90 os cientistas fizeram/criaram um feijão, com as mesmas propriedades de um feijão natural, mas ele não brotou)
Com o agricultor da parábola era assim. Ele podia cobrir a semente, limpar o solo, colocar alguns fertilizantes, e até mesmo criar um dispositivo que irrigasse a terra com eficiência... Isso é importante, e isso ele conseguia fazer. Mas ele não podia forçar a semente a germinar e crescer. A única coisa que ele pode fazer é dormir, noite após noite, e se levantar, um dia após o outro... O resto, ele tem que deixar com a semente. A versão NVI em português diz: “...um homem que lança a semente sobre a terra. Noite e dia, estando ele dormindo ou acordado, a semente germina e cresce, embora ele não saiba como.” Não é enfatizado aqui o sono ou o despertar do semeador, mas o fato de que ele também se ocupa de outros trabalhos. Mas à respeito da semente que ele semeou ele está tranqüilo (Veja que não estamos aqui diante de um agricultor preguiçoso, relaxado com a plantação). O que o texto está dizendo é que ele não fica acordado a noite toda, batendo os dedos da mão, preocupando-se e martirizando-se quanto ao estado daquela semente, se ela estava no lugar certo e se iria crescer ou não. Ele não se levanta na manhã seguinte e sai para o campo, cava uma das sementes e verifica se ela germinou, como nós fazemos na escola na experiência do feijãozinho no algodão: ficamos ansiosos. (NOTA: essa foto aí do lado foi uma experiência que eu fiz quando li esse texto. E fiquei ansioso mesmo, rrsss). Mas aquele homem da parábola não! Ele semeia e assume que a semente fará o restante. Por isso o agricultor não se preocupa, não fica cavando os grãos, não procura meios esquisitos para apressar o processo da germinação e crescimento, mas fica dia e noite tranqüilo.
Aqui nós somos ensinados que, assim como no cultivo do trigo, na obra da graça há muita coisa que ultrapassa o poder de compreensão e de controle dos homens: há um crescimento misterioso e independente.
Essa parábola coloca sua ênfase sobre essa verdade: a soberania de Deus! Ela nos ensina que não é o homem e sim Deus que é o autor do crescimento físico e espiritual do reino de Deus nos corações e vidas. É pela vontade d’Ele que a semente espiritual estabelece sua influência transformadora e cresce no coração dos seres humanos.
Essa verdade também se aplica a nós: Precisamos admitir que não sabemos, e não podemos, fazer com que a semente da palavra e o reino de Deus germine e se desenvolva em alguém.
Paulo entendia que não podia! Por isso disse em 1Co.3:6: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus”. Jesus já havia ensinado que não saberíamos, em Jo.3:8, quando disse: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”.

v.28 A terra por si mesma frutifica...

A expressão “por si mesma” (no grego 'automáte', literalmente “automaticamente”) significa que é “sem uma causa visível”, “sem qualquer ajuda humana” que ela desempenha sua função. Pesquisando essa palavra, descobre-se que ela só aparece duas vezes no NT. Aqui, e em At.12, quando a porta da cidade automÁte (abre-se automaticamente, sozinha, sem qualquer ajuda) para Pedro. Percebemos então que o verdadeiro cerne da parábola é a certeza do desenvolvimento da semente!

Temos aqui a afirmação de que o agricultor não tem parte alguma no crescimento, mas que o poder de crescer é algo que faz parte das propriedades da própria semente. Esse crescimento não é observado pelo agricultor, não é provocado por ele, mas acontece! Esse é o poder da vontade Deus! E esse poder é “auto-espontâneo, sem qualquer ajuda externa; e que tem um tempo próprio que precisa ser respeitado e aguardado!
Para mim, essa é uma palavra de conforto, pois nós pastores estamos a lhe dar com esse poder (que é de Deus), afim de que vidas sejam transformadas, e não podemos ficar impacientes quanto a isso!
Quantas vezes somos tentados à escolhermos um texto para um sermão, ou uma argumentação, pensando que podemos nós mesmos desenvolver a fé na vida do irmãozinho. Ou quantas vezes ficamos nos perguntando em quem essa mensagem vai tocar. Quantas vezes oramos, pregamos, visitamos, convidamos, e parece que nada disso surte efeito naquela pessoa que estamos tentando evangelizar. Ou quantas vezes ficamos aflitos por parentes que estamos evangelizando e testemunhando há tempos e elas ainda não se converteram.
Irmãos, não podemos ficar alimentando expectativas irracionais ou espetaculares sobre a conversão das pessoas, mas precisamos perceber que não depende de nós e é algo geralmente não ocorre da noite para o dia. O agricultor jamais será capaz de explicar exatamente o que ocorre a um grão de trigo, após tê-lo semeado. Também não poderá esclarecer por qual razão alguns desses grãos morrem e outros crescem. Ele também não será capaz de especificar a hora e o minuto em que a vida começará. Essas são questões que ele tem de deixar sem qualquer explicação. O semeador planta a semente e deixa o crescimento dela aos cuidados de Deus, porque “Deus dá o crescimento” (1Co.3:7).
Da mesma forma, a operação da graça divina, no coração de um homem, são inteiramente misteriosas e insondáveis. Não podemos explicar por qual motivo a Palavra de Deus produz efeitos numa pessoa e na outra nada faz. Nem sabemos explicar por que certas pessoas rejeitam a palavra de Deus mesmo com garantia de bênçãos, e em outros casos pessoas nascem de novo, mesmo com dificuldades e perseguições. As habilidades mais desenvolvidas, a mais poderosa oratória, a mais brilhante atuação humana, não podem garantir o sucesso. A nossa principal tarefa consiste em semear a Palavra. Feito isso, só podemos esperar os resultados com fé e paciência. Devemos descansar, noite e dia, deixando nas mãos do Senhor o resultado de nosso trabalho. Somente Ele pode determinar o resultado, e se achar conveniente, dará o sucesso.
Desde o momento em que lançamos a semente, o lavrador deve confiar a Deus a germinação, o crescimento, a polinização e a maturação. Porque este é um mistério, é um milagre de Deus! E este não nos foi revelado!
Nós podemos descrever o processo da germinação do trigo, mas não podemos explicá-lo. Depois que a semente é semeada, ela absorve a umidade do solo, incha e brota. Após uma semana ou duas, as primeiras hastes aparecem na superfície. Gradualmente as plantas começam a lançar rebentos, ganham altura e desenvolvem as espigas. Então, quando a planta morre, sua cor muda do verde para o dourado, o grão amadurece e é chegada a hora da ceifa. Tanto aquele agricultor, como também nós, só sabemos isso. Nem ele nem nós podemos explicar o crescimento e desenvolvimento. Deus guarda o segredo da vida! Deus está no controle!

Ah, essa com certeza é uma grande palavra de encorajamento, tanto quando foi proferida como em todas as ocasiões, como também uma resposta à impaciência e ao desânimo que as vezes sobrevêm sobre os semeadores. Essa verdade certamente deu um enorme conforto aos discípulos, porque com paciência, eles aguardariam a colheita que, certamente, viria. A vitória estava garantida! Hoje também precisamos ter essa certeza: De que o plano de Deus está sendo, e vai ser executado!

É interessante também o progresso que a 2ª parte do versículo 28 mostra:
“...primeiro a erva, depois a espiga, e por fim o grão cheio na espiga.” (3 substantivos: erva, espiga, grão)

a)Pimeiro a erva/talo(NVI) - o termo indica o grão em seu início, o broto, quase como grama
b)Depois a espiga – aqui é a haste que vai congregar os grãos da planta.
c)e por fim o grão/trigo cheio - grão maduro já na espiga.

Na experiência que citei, do feijãozinho no algodão (que aliás me rendeu essa foto do blog), eu não consegui ver o processo. Essa passagem de um estágio para outro é tão gradual que é imperceptível. Mas Jesus nos garante que está acontecendo! É o mesmo que acontece quando o dia está raiando. Dá até para acompanhar o sol saindo, mas não o dia clareando. Algo muito semelhante acontece no caso do reino de Deus: Apesar de não ser possível descrever essa transição/processo interno, a verdade é que “a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Pv.4:18). E isso se aplica não somente com respeito à vida do crente, mas também com respeito à influência do evangelho, que pouco a pouco se expande, alcançado uma pessoa após outra. Isso mostra, claramente, o poder da palavra. Somos ensinados então que, assim como se dá no cultivo do trigo, na operação da graça divina a vida também se manifesta gradualmente.

Então, vimos até aqui, que:
1) Há alguém que semeia...
2) Há um crescimento misterioso e independente...

E por último, vemos que:

III. HÁ COLHEITA CERTA
v.29: "E, quando o fruto já está maduro, logo se lhe mete a foice, porque é chegada a ceifa.”

A colheita era uma das épocas mais felizes do ano na Palestina. Era marcada com comemorações e festas religiosas. O processo de colher o grão era feito com o corte de uma pequena foice. Em seguida, era reunido em feixes. Depois o grão era levado para a eira (local de superfície dura e com certa elevação). Varias ferramentas, tais como malhos de metal cortantes puxados por bois, eram usadas para debulhar e sovar. O grão era, então, jogado para o ar, com um garfo de lavoura. O vento levava a palha, mas os grãos mais pesados caíam no chão. Finalmente, os grãos eram peneirados com uma peneira feita de arco de madeira com tiras de couro. E em fim, o cereal era armazenado.

A colheita tornou-se um símbolo do julgamento de Deus (Jr.51:33; Jl.3:13); Em Mt.13 Jesus comparou o juízo final com a colheita (vs.30, 39); Em Ap.14 também temos essa associação (vs.14-20).
No entanto, Jesus usou a mesma metáfora para falar do ajuntamento de todos os que nEle confiam, indicando que a colheita final já iniciou com a sua primeira vinda (Mt. 9:37-38; Lc.10:2; Jo.4:35).
A parábola diz que em um determinado momento, o mesmo homem do v.26 pega a foice, porque o momento pelo qual ele tem esperado finalmente chegou. Aqui há uma descrição de colheita. O sinal para ele é o cereal maduro. Nem antes, nem depois, mas no momento certo. Somos ensinados que, assim como no cultivo do trigo, na operação da graça não haverá colheita, enquanto a semente não estiver madura!

O momento/tempo certo é esse: quando o fruto está maduro. Nesse momento, sem nenhum atraso, o homem do v.26 pega a foice. O agricultor não pode esperar demais, senão pode sofrer prejuízo. É assim que acontece na natureza, e assim também acontece no reino espiritual.
A cena descrita aqui, como parece, é escatológica. (Joel 3; Hb.4:13; Ap.14:14-16). Mas a lição nesse verso é a seguinte: a vitória é certa! A colheita está se aproximando, e certamente chegará, no momento exato decidido nos planos eternos de Deus.
Nenhum agricultor corta o trigo que está brotando, quando ainda está verde. Antes, espera até que o sol, a chuva, o calor e o frio terminem as suas tarefas, e as espigas fiquem cheias e douradas. Só então é que ele lançará a foice e fará a sega e o recolherá ao seu celeiro. Nas operações da graça, Deus age precisamente dessa mesma maneira. Ele jamais colhe o grão enquanto este não estiver maduro e preparado. Este versículo acrescenta um aspecto escatológico à parábola. Assim sendo, o aperfeiçoamento do reino de Deus nos homens, está ligado ao tempo da ceifa, o que sempre é identificado com a vinda de Jesus Cristo. Esta adição à parábola, então, ensina-nos que, desde o princípio, está garantido o fim!
Ensina-nos esse verso que algum dia a foice será posta em funcionamento, e que tudo aquilo pelo que tínhamos nos esforçado, trabalhado e orado por tanto tempo, finalmente atingirá o ponto da realização.
Em suas conexões escatológicas, conforme se vê neste versículo, a foice fala-nos daquilo que é melhor. Esse símbolo da foice fala-nos da esperança que aguarda uma colheita. Ensina-nos que esta vida não é vã! Que existe aqui certo desígnio e destino. A foice assegura-nos a vitória final! Que seremos fruto para Deus, maduro e aceitável.
O chamado da foice é aqui uma exclamação de júbilo pelas espigas carregadas de grãos. A colheita aqui significa alegria! (Is.9:2). Esta é a interpretação cristológica do versículo. “Sede, pois, irmãos, paciente, até a vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas. Sede vós também pacientes e fortalecei o vosso coração, pois a vinda do Senhor está próxima” (Tg.5:7,8). Haverá colheita certa! E então o reino de Deus será revelado em todo o seu esplendor!

CONCLUSÃO:
João Calvino olhou para esse texto e também viu os ministros da Palavra semeando a semente. Ele achava que isso foi escrito para que eles não desanimem quando não virem resultados imediatos. Jesus, portanto, nos ensina que devemos ser pacientes e nos faz recordar o processo de germinação, como acontece na natureza.
O pregador não deve irritar-se ou inquietar-se, mas somente proclamar a Palavra
. Como a semente chega à maturação no tempo próprio, assim também o fruto do trabalho do pregador aparecerá. É bom lembrarmos da afirmação que o Apóstolo Paulo fez aos Filipenses: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp.:6).

Aprendemos pela parábola da semente que cresce secretamente que não devemos desanimar na obra do Senhor. Não devemos medir a nossa espiritualidade pelos resultados do nosso ministério. Não precisamos inventar outros métodos criativos, mas, devemos ser perseverantes e fiéis em semear a preciosa Semente, esperando em Deus que fará brotar o fruto que Ele quiser.
Guardemos em nossas mentes esta parábola que contém tão grande verdade e consolemo-nos diante desse ensinamento!
Quanto tempo tudo isso leva? Depende do cronograma de Deus! E o tempo d’Ele não é igual ao nosso. Geralmente queremos que as coisas sejam feitas rapidamente e nossa tendência é julgar o sucesso do processo pela rapidez com que ele é concluído. Jesus disse: “...primeiro a erva, depois a espiga, e por fim o grão cheio na espiga.” É um processo observável, mas que leva tempo. Não depende de nós. Nosso trabalho consiste em plantar essa divina semente e crer que há um poder nela que a faz crescer por si só. É assim que o reino de Deus funciona na vida das pessoas. E esse mesmo processo continua, nunca mudou.

Não fiquemos aflitos, nem influenciados pela cultura do “já e agora”.
1) Há alguém que semeia...
2) Há um crescimento misterioso e independente...
3) Há colheita garantida...
Esse é um dos segredos do reino de Deus. A Palavra está crescendo secretamente... Que ela nos reanime! Que a esperança da colheita nos envolva e nos faça caminhar sem desistir nem desanimar! Em nome de Jesus, amém.

Deus o(a) abençoe!
(Arleilson Albino)


BIBLIOGRAFIA:
As Parábolas de Jesus Simon Kistemaker)
Comentário Esperança (Adolf Pohl)
Meditações no Evangelho de Marcos (J. C. Ryle)
Notas de J. H. Paterson
Notas de Mattew Henry
Novo Comentário Bíblico Contemporâneo (Larry W. Hurtado)
Novo Comentário da Bíblia (Francis Davidson)
O NT Interpretado (R.N. Champlin)
PARÁBOLAS (William Hendriksen)

1 comentários:

Pastoragente disse...

Graça e paz!
Vim conhecer seu Blog e tive uma grata surpresa, pois é muito boa sua iniciativa.
Já estou seguindo.
Venha dar a honra de sua visita no PASTORAGENTE.BLOGSPOT.COM e, se quiser seguí-lo, vai ser uma alegria para mim.
Lá eu exponho da forma mais realista e divertida possível as situações, dúvidas, experiências ministeriais e pessoais de uma mulher simples como eu.
Fique na paz e que o Senhor abençôe você e toda sua família.
Abração!!!

6 de maio de 2010 07:49

Postar um comentário

Livros Sugeridos

  • A arte expositiva de João Calvino (Steven Lawson, Ed. Fiel) A Cruz e o Ministério Cristão (D. A. Carson, Ed. Cultura Cristã) A Evangelização e a Soberania de Deus (J. I. Packer, Cultura Cristã) A genuína experiência espiritual (Jonathan Edwards, Ed. PES) A glória de Cristo (John Owen, PES) A Glória de Cristo (R. C. Sproul, Cultura Cristã) A Guerra pela Verdade (John MacArthur, Fiel) A história das doutrinas cristãs (Louis Berkhof, PES) A Lei da Perfeita Liberdade (Michael Horton, Cultura Cristã) A paixão de Cristo (John Piper, Cultura Cristã) A paixão de Deus por sua glória (John Piper, Cultura Cristã) A redescoberta da santidade (J. I. Packer, Cultura Cristã) A Santidade de Deus (R. C. Sproul, Cultura Cristã) A tentação / A mortificação do pecado (John Owen, PES) A verdade para todos os tempos (Calvino, PES) Adoração Reformada (Terry L. Johnson, Ed. Puritanos) Amado Timóteo (Thomas K. Ascol, Fiel) Apologética Cristã no Séc. XXI (Alister McGrath, Ed. Vida) As Doutrinas da Maravilhosa Graça (Michael Horton, Cultura Cristã) As firmes resoluções de Jonathan Edwards (Steven Lawson, Fiel) Avivamento (D. M. Lloyd-Jones, PES) Calvino 500 anos (Hermisten M.P. Costa, Cultura Cristã) Cartas de João Calvino (Cultura Cristã) Chaves para o crescimento espiritual (John McArthur, Fiel) Com vergonha do evangelho (John McArthur, Fiel) Como viver e agradar a Deus (R.C. Sproul, Cultura Cristã) Confissões de um ministro de louvor (Dan Lucarini, Fiel) Coração de Pastor (John Sittema, Puritanos) Criados à Imagem de Deus (Anthony Hoekema, Cultura Cristã) Cristianismo Autêntico (vol. I, II, III, IV, V e VI) – (M. Lloyd-Jones, PES) Cristianismo sem Cristo (Michael Horton, Cultura Cristã) Cristo dos Pactos (O. Palmer Robertson, Cultura Cristã) Cristo e a Cruz (Alderi de S. Matos e Hermisten M.P. Costa, Cultura Cristã) Davi, um homem segundo o coração de Deus (Charles Swindoll, Ed. Mundo Cristão) Descobrindo a vontade de Deus (S. Ferguson, PES) Deus é o Evangelho (John Piper, Fiel) Deus é Soberano (A. W. Pink, PES) Do Shabbat para o Dia do Senhor (D. A. Carson, Cultura Cristã) Elias, um homem de heroísmo e humildade (Charles Swindoll, Mundo Cristão) Ensinando para Transformar Vidas (H. Hendricks, Ed. Betânia) Entre os Gigantes de Deus (J. I. Packer, Fiel) Ester, uma mulher de sensibilidade e coragem (Charles Swindoll, Mundo Cristão) Estudos no sermão do monte (D. M. Lloyd-Jones e J.C. Ryle, Fiel) Firmes, um chamado à perseverança dos santos (John Piper e Justin Taylor, Fiel) Fome por Deus (John Piper, Cultura Cristã) Jesus, o maior de todos (Charles Swindoll, Mundo Cristão) Jó, um homem de tolerância heróica (Charles Swindoll, Mundo Cristão) José, um homem íntegro e indulgente (Charles Swindoll, Mundo Cristão) Lições aos meus alunos (vol. I, II e III) – (Charles H. Spurgeon, PES) Mantendo a Igreja Pura (Augustus Nicodemus, Cultura Cristã) Moisés, um homem dedicado e generoso (Charles Swindoll, Mundo Cristão) Nossa suficiência em Cristo (John McArthur, Fiel) O conquistador de almas (Charles H. Spurgeon, PES) O evangelho segundo Jesus (John McArthur, Fiel) O Futuro do Calvinismo (Leandro A. Lima, Cultura Cristã) O Ministério do Espírito Santo (R. C. Sproul, Cultura Cristã) O Ministério Pastoral (John Armstrong, Cultura Cristã) O Pastor Aprovado (Richard Baxter, PES) O Pastor Mestre (Peter White, Cultura Cristã) O que é teologia reformada (R. C. Sproul, Cultura Cristã) O que é uma Igreja Saudável (Mark Dever, Fiel) O que estão fazendo com a Igreja (Augustus Nicodemus, Mundo Cristão) O sofrimento e a soberania de Deus (John Piper, Cultura Cristã) O Spurgeon que foi esquecido (I. H. Murray, PES) Origens Intelectuais da Reforma (Alister McGrath, Cultura Cristã) Os Milagres de Jesus (vol. I e II) (C. H. Spurgeon, Shedd) Os puritanos, suas origens e seus sucessores (M. Lloyd-Jones, PES) Ouro de tolo? (John McArthur, Fiel) Paixão pela Verdade (Alister McGrath, Shedd) Paulo, um homem de coragem e graça (Charles Swindoll, Mundo Cristão) Plena satisfação em Deus (John Piper, Fiel) Por quem Cristo morreu? (J. Owen, PES) Princípios Bíblicos de Adoração Cristã (Hermisten M.P. Costa, Cultura Cristã) Provai e vede (John Piper, Fiel) Quando eu não desejo Deus (John Piper, Cultura Cristã) Quem Foram os Puritanos (Erroll Hulse, PES) Raízes da teologia contemporânea (Hermisten M. P. Costa, Cultura Cristã) Razão da Esperança (Leandro Lima, Cultura Cristã) Reforma hoje (Michael Horton e outros, Cultura Cristã) Religião de Poder (Boice, Sproul, Packer, McGrath, Horton, Cultura Cristã) Salmo 119, o alfabeto de Deus (C. H. Spurgeon, Fiel) Salvos pela Graça (Anthony Hoekema, Cultura Cristã) Santos no Mundo (Leland Riken, Fiel) Sexo e a supremacia de Cristo (John Piper e Justin Taylor, Cultura Cristã) Spurgeon, uma nova biografia (Arnold Dallimore, PES) Um ministério ideal (vol. I e II) – (C. H. Spurgeon, PES) Uma vida voltada para Deus (John Piper, Fiel) Verdades que Transformam (James Kenned, Fiel) Vivendo para a glória de Deus (Joel Beeke, Fiel)